segunda-feira, 20 de abril de 2009

E o jantar?

Aproveito o momento amargo, de derrota, para declarar minha simpatia pelo tricolor paulista. Ontem, no Morumbi, tomei o cuidado de ficar o mais distante possível da(s) torcida(s) organizada(s). Fiz bem, mas ainda tive a oportunidade de verificar como o torcedor brasileiro é ingrato: os supostos heróis do início do jogo eram os mesmos 'filhos da puta' do final.

Enquanto os mais exaltados xingavam jogadores e familiares do juiz, as mulheres, percebendo que o jogo estava perdido, batiam fotos para os filhos e discutiam sobre o que teriam para o jantar. São más torcedoras, mas priorizam o que há de realmente importante nesta vida.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Um velho conservador

A figura de António Sousa Homem é, de longe, a que mais me diverte dentre todas as figuras divertidas que a blogosfera nos proporciona. Segundo consta, acaba de completar seus oitenta e nove anos e habita calmamente o 'eremitério' de Moledo, no coração do Minho. É visitado por irmãos e sobrinhos e, por opção bem calculada, já não pode compreendê-los tão bem. O interlocutor usual de Sousa Homem são a própria memória e as sombras que daí retira: o velho doutor Homem, seu pai; seu avô; Tio Alberto; Tia Benedita. Maria Luisa, uma sobrinha, de vez em quando aparece como que para atestar a transitoriedade dos tempos.

Sousa Homem é um resignado ('conheço esses caminhos por razões médicas, tentando aliviar os pulmões e despertar neles o desejo de continuarem a respirar'), e isso já seria suficiente pra fazer muita gente franzir o sobrolho. De fato,
Desiludi uns e diverti outros. Expliquei aos meus sobrinhos que não, que nunca tive uma adolescência revolucionária e barbuda. Há cinquenta anos eu esperava da vida o que ainda hoje acho decente esperar-se: um perfume de mimosas numa estrada do Minho. Era um conservador e sou um conservador, um hibisco que muda de folha na altura certa e que aceita a dádiva da fortuna e da metereologia.
Desiludiram-se os sobrinhos, 'que preferiam ver-me como um velho anarquista que tivesse passado o melhor tempo da sua juventude colocando bombas à porta de bancos, ou assaltando a tradição da família para que me declarasse democrata e republicano'. Desiludiram-se as irmãs, que não viram as paixões do irmão mais velho, também elas transitórias, concretizarem-se em matrimônio. Mas restaram os livros, e os contemporâneos que já partiram.

Um desses livros é o The Anatomy of Melancholy, de Robert Burn, herdado do velho doutor Homem, seu pai. Sousa Homem parece saber muito sobre a melancolia, mas não vê nisso motivo para desespero ('cada dia que acrescento à minha idade é um dia para agradecer à providência'); longe disso, entende, assim como seu pai, que os sacrifícios que somos forçados a fazer servem como bálsamo para a juventude. Eis aí a melhor resposta para bombas em portas de bancos: o encolher de ombros de quem tem uma família para cuidar.

Muitos devem achar, a exemplo de sua irmã mais nova, que Sousa Homem simplesmente se recusou a dobrar o século ('ela tem a impressão de que eu pertenço, não a este mundo, mas aos calendários que vão passando de moda -- gosto da imagem e não me ofendo), ou que, assim como o condenado de Nick Cave, he goes shuffling out of life, just to hide in death awhile. Mas Sousa Homem não se esconde em lugar nenhum, a menos que se considere o eremitério de Moledo, no coração do Minho, um esconderijo.

terça-feira, 14 de abril de 2009

A autoridade dos posts ad hoc

Uma das vantagen de um blog pequeno é poder malhar quem melhor nos aprouver sem muito risco de receber uma resposta, mais ou menos como quem joga tomates e se esconde atrás de uma porta. Adriano Correia me viu jogando um tomate e não gostou, veja aqui por quê. Não vou responder porque, bem ou mal, já tentei comentar todas as questões ali contidas -- o princípio de autoridade, o verdadeiro/verossímil etc. --, bastando ao mais interessado dirigir-se à categoria Religião ao lado.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

A autoridade das idéias ad hoc

Na era da informação, o simples fato de termos uma idéia, somado à constatação de que não somos completos idiotas (no nosso próprio julgamento), já confere à idéia em questão um caráter oficioso, passível de publicação em manual didático num futuro próximo. Como não há quem queira entrar em disputa, por cordialidade ou ignorância mútua, as idéias ad hoc só se diferenciam pela inventividade e pelos malabarismos retóricos de seus autores. Dou um exemplo recente:

E voltando ao Velho Testamento: Moisés anunciar para um bando de retirantes que não deveriam olhar para a mulher do próximo faz bastante sentido quando se quer diminuir o número de crimes passionais em suas hordes.

As idéias ad hoc geralmente se apresentam como acima: algo tido como verdadeiro séculos afora é repentinamente desacreditado graças a um detalhe circunstancial que, curiosamente, todos os que vieram antes de nós, esses bobinhos, não conseguiram perceber. Também geralmente, o detalhe circunstancial é de ordem administrativa. "É muito conveniente que a lei da gravidade funcione, ou não poderíamos erguer prédios" serve como prova de que não poderia existir um universo sem lei da gravidade. Se pressionados, os autores das idéias ad hoc lembrarão que não estão a fornecer provas, apenas sugestões 'plausíveis', apesar de no íntimo de suas almas acreditarem piamente que acabaram de desferir um golpe mortal contra o edifício da tradição.

Adicionalmente, essas idéias propõem soluções bem mais simples, uma espécie de massificação da navalha de Occam. É como se dissessem: "joguem fora todos os seus livros de História, o que se julga conveniente hoje deve ter sido conveniente para todos os homens em todos os tempos". Se um dos mandamentos pode ser explicado circunstancialmente, por que não fazê-lo, ainda que ele seja válido independentemente das circunstâncias, inclusive quando elas se mostram adversas?

Dou outro exemplo, cuja fonte não consegui recuperar: o cristianismo tornou-se a religião oficial do império romano porque era muito 'conveniente' aos imperadores ter súditos que aceitavam dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Nunca antes vimos idéias tão ambiciosas, nem tão falsas.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Homens e mulheres tais como nasceram

Dia desses presenteei-me com dois livros da Jane Austen, Pride and Prejudice (pois é, nunca tinha lido) e Emma. Diferentemente dos últimos 5 ou 6 livros de ficção que tinha lido, dessa vez não me decepcionei. Jane Austen é a romancista predileta de Paul Johnson e recebeu elogios entusiásticos de Sir Walter Scott e Somerset Maugham, mas por muito tempo permaneci incrédulo. Antes que falem em machismo, a própria Austen explica o porquê, ao comentar, através de Emma, uma carta de Mr Martin: I can hardly imagine the young man whom I saw talking with you the other day could express himself so well, if left quite to his own powers, and yet it is not the style of a woman; no, certainly, it is too strong and concise; not diffuse enough for a woman.

Afora questões estilísticas, o alívio maior é perceber que homens e mulheres, interessantes ou não, aparecem nesses livros tais como nasceram e se criaram, não como subprodutos de uma construção ideológica. Os homens interessantes são interessantes como apenas homens poderiam ou tenderiam a ser: discretos, gentis, instruídos e corajosos. Idem para os desinteressantes: aduladores, insensíveis e deselegantes. Já as heroínas de Austen são perspicazes sem ser exageradamente atrevidas, e as figuras femininas que comandam nossa simpatia são atenciosas e singelas, quando não submissas. As que inspiram nosso descaso são, como não poderiam deixar de ser, frívolas e namoradeiras.

Deve causar certa estranheza que, apesar disso, os enredos de Austen sejam populares até hoje. Um dos motivos por que daqui a dez anos ninguém vai lembrar de Brokeback Mountain e As Horas e outros tantos filmes/livros recentes é que, neles, sempre que se quer destacar a importância de um sexo, diminui-se a do outro. Qualquer homem que se queira interessante num ambiente como o de As Horas deve ter características eminentemente femininas etc. Felizmente esse não é o tipo de homem que chamaria a atenção de Lizzy Bennet ou de Emma. Ou melhor, chamaria sim, apenas para ser justamente execrado.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Post sobre o jornalismo brasileiro

O conservador brasileiro, não sem certa razão, sempre se refere com um nojinho incontido às peripécias que enchem os jornais. Muito mais edificante falar sobre poesia, religião ou Monica Bellucci. Há aí um problema de prioridades: como disse o Pereira Coutinho numa entrevista recente, discutir detalhes teológicos no país do mensalão é como querer dançar valsa na tempestade, ou algo assim. Ouçamos o filósofo Paulo Betti: às vezes é preciso sujar as mãos.

A situação da Veja é particularmente irritante. Se existe uma revista que deve inspirar preocupação, essa revista é a Veja, que é a mais lida. E quem mais escreve nela, pelo menos nas últimas edições, é o Andre Petry: tem uma coluna e é responsável pelas matérias sobre as eleições nos EUA. Vejam as bobagens que o sujeito é capaz de escrever: O que mais provocou a simpatia mundial por Obama, conforme se lê nas pesquisas feitas em dezenas de países, é um conjunto de características para as quais Obama jamais chamou atenção porque espanta o voto do americano médio. A saber: sua negritude, sua urbanidade, seu traquejo político, sua formação acadêmica de elite.

Petry garante que formação acadêmica de elite espanta o voto do americano médio. Agora me ajudem com a contagem de presidentes americanos que frequentaram Harvard: John Adams e seu filho, John Quincy Adams; Theodore Roosevelt; Franklin Roosevelt; John Kennedy. Esses 5 são bem conhecidos; uma googlada rápida fornece o nome de mais dois, Rutherford Hayes e o próprio George W. Bush (master's degree). Em Princeton formaram-se dois, James Madison e Woodrow Wilson. Em Stanford, o engenheiro Hoover. Em Yale, Bush pai, Bush filho e Taft. Um em Goergetown, um em Duke, quatro na William & Mary College, um em Columbia, um em Dickinson, um em Williams. Traquejo político também é impopular, segundo Petry. Não faço idéia de onde ele tirou isso. Então o povo americano prefere os mais burocráticos, os mais enrolados?

Petry repete religiosamente os lugares-comuns mais batidos -- e mais desacreditados por quem se deu ao trabalho de estudar -- sobre a história dos EUA, como afirmar que o New Deal salvou a economia americana pós-29, que a administração de Harding (1921-23) foi a mais corrupta, que Nixon abusou dos poderes de presidente mais que seus antecessores, que quem se opunha ao movimento aboliciosta era necessariamente racista e por aí vai. Ao fazer um balanço do governo de W Bush, lembra displicentemente que Bush chegou dizendo que faria um governo "para unir, não para dividir", e agora entrega um país com duas guerras (Iraque e Afeganistão), um déficit monumental (já na casa do trilhão de dólares) e uma economia em frangalhos (a pior crise desde a II Guerra Mundial), como se a crise econômica fosse de responsabilidade dele e como se a decisão de entrar numa guerra não passasse de mero capricho pessoal (se perguntado, Petry provavelmente responderia que sim, que não passa de mero capricho pessoal).

Num quadro com as colunas 'O mundo pensa que... / Mas os Estados Unidos pensam que...', Petry mostra que não deveria se arriscar a falar por uma nação que ele desconhece, ou conhece apenas através do NY Times: ... o eleito merece todo o entusiasmo de que é objeto, como é natural em qualquer eleitorado do mundo. Torcem para que Obama resolva os problemas (no kidding?), mas não há nenhum sinal (nem procissão, nem comoções públicas, nem pedidos de benção) de que o julguem portador de superpoderes... É de surpreender, então, que eleitores conservadores americanos tenham inventado os epítetos the Anointed One, the Chosen One etc. para Obama -- certamente Petry não considera (mas sabe-se lá, né) desprezível a parcela conservadora do eleitorado americano.

É natural ver simplificações numa revista cujos artigos raramente ultrapassam as duas páginas; pode-se sempre falar em didatismo ou algo que o valha. Difícil de entender é que noções tão bobas -- bobas até entre setores da esquerda americana, principalmente agora que já explodiram os primeiros escandândalos da era Obama -- ocupem tanto espaço no semanário mais lido do país. Quando é na Veja o Reinaldo Azevedo não reclama...

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O Papa Bento XVI é um “des-reformador” e como todos os conservadores, ele quer que tudo esteja igual, que não haja marolas, nem discordâncias, nem heresias. E aí comete gafes papais. O trecho é do Arnaldo Jabor. Segundo Jabor, melhor seria se o papa admitisse heresias; só assim pra evitar 'gafes papais'. Um conselheiro assim é exatamente o que o Vaticano precisava.

Interregnum

Gostaria de poder dizer que tenho um motivo nobre pra estar escrevendo pouco -- emprego novo, fundação de uma ONG pela defesa das criancinhas da Palestina ou organização de uma conferência sobre empreendedorismo social --, mas a verdade é que, sem móveis, fica desconfortável digitar por muito tempo. O pior disso tudo é que me surgem idéias geniais, originalíssimas, que escapolem convenientemente antes que apareça a disposição pra escrever. Vai então um post sobre o jornalismo brasileiro.