terça-feira, 9 de maio de 2006
sexta-feira, 5 de maio de 2006
Infância

Volto a Graciliano Ramos depois de uns quatro anos, dessa vez para ler Infância, memórias que vão desde as mais remotas recordações da meninice até o esboço dos primeiros escritos literários. Álvaro Lins - e nao só ele - costumava dizer que esse é o texto mais bem acabado de Graciliano. Confesso que não consigo perceber com facilidade essa gradação, principalmente quando o referencial são textos que, para mim, sempre representaram o supra-sumo do bem escrito: Angústia e S. Bernardo.
Nada obstante, não duvido que ela exista (a confirmação disso requereria uma releitura do resto da obra), de vez que essas memórias, ou fragmentos de memórias, protagonizadas pelo menino Graciliano, servem de guia para o entendimento da visão de Graciliano Ramos, o escritor. Toda sua obra parece remontar ao hercúleo esforço de entender o mundo, e isso se mostra com uma obviedade ululante na constante estupefação do menino ante as novidades que se lhe apresentam. Nada mais natural, então, que o surgimento dessa espécie de cartilha: uma exposição minuciosa das ferramentas que lhe possibilitaram construir toda uma literatura, na esperança, talvez, de que o leitor, armado dessas informações, pudesse acompanhá-lo ou auxiliá-lo na investigação.
Impossível não lembrar, por ocasião do episódio narrado no capítulo Um incêndio, de um dos tais novelistas russos (en passant: devia ser um de seus preferidos): Tchekhov. No conto Um acontecimento, deste último, a indignação infantil perante a indiferença generalizada dos adultos é a mesma. No caso de Graciliano, os filhotes devorados são substituídos por uma negra que morre num incêndio, por ter tentado salvar uma imagem de Nossa Senhora. Ao narrar o acontecimento e a impressão medonha que lhe infligira a visão do cadáver desmembrado e deformado, o menino obtém dos adultos não mais que um assentimento desinteressado: "Não me puniram, quiseram transformar aquele horror num fato ordinário."
É da percepção do supostamente ordinário que surge o aspirante a escritor. Sente dificuldades tremendas ao tentar ler o barão de Macaúbas: não por não ter jeito para a leitura, como não se cansa de supor, mas por perceber, entre ele e o barão, incompatibilidades literárias irreconciliáveis, antes mesmo, quem sabe, de saber o que seria uma incompatibilidade. Somos levados a acreditar nisso por uma confissão que surge logo no início do volume:
Nada obstante, não duvido que ela exista (a confirmação disso requereria uma releitura do resto da obra), de vez que essas memórias, ou fragmentos de memórias, protagonizadas pelo menino Graciliano, servem de guia para o entendimento da visão de Graciliano Ramos, o escritor. Toda sua obra parece remontar ao hercúleo esforço de entender o mundo, e isso se mostra com uma obviedade ululante na constante estupefação do menino ante as novidades que se lhe apresentam. Nada mais natural, então, que o surgimento dessa espécie de cartilha: uma exposição minuciosa das ferramentas que lhe possibilitaram construir toda uma literatura, na esperança, talvez, de que o leitor, armado dessas informações, pudesse acompanhá-lo ou auxiliá-lo na investigação.
Impossível não lembrar, por ocasião do episódio narrado no capítulo Um incêndio, de um dos tais novelistas russos (en passant: devia ser um de seus preferidos): Tchekhov. No conto Um acontecimento, deste último, a indignação infantil perante a indiferença generalizada dos adultos é a mesma. No caso de Graciliano, os filhotes devorados são substituídos por uma negra que morre num incêndio, por ter tentado salvar uma imagem de Nossa Senhora. Ao narrar o acontecimento e a impressão medonha que lhe infligira a visão do cadáver desmembrado e deformado, o menino obtém dos adultos não mais que um assentimento desinteressado: "Não me puniram, quiseram transformar aquele horror num fato ordinário."
É da percepção do supostamente ordinário que surge o aspirante a escritor. Sente dificuldades tremendas ao tentar ler o barão de Macaúbas: não por não ter jeito para a leitura, como não se cansa de supor, mas por perceber, entre ele e o barão, incompatibilidades literárias irreconciliáveis, antes mesmo, quem sabe, de saber o que seria uma incompatibilidade. Somos levados a acreditar nisso por uma confissão que surge logo no início do volume:
Legou-me [meu avô] talvez a vocação absurda para as coisas inúteis. (...) Gastamos uma eternidade no arranjo de ninharias, que se combinam, resultam na obra tormentosa e falha. (...) Trabalhador caprichoso e honesto, procurou os seus caminhos e executou urupemas fortes, seguras. Provavelmente não gostavam delas: prefeririam vê-las tradicionais e corriqueiras, enfeitadas e frágeis. O autor, insensível à crítica, perseverou nas urupemas rijas e sóbrias, não porque as estimasse, mas porque eram o meio de expressão que lhe parecia mais razoável.O neto fez o mesmo: perseverou em suas ninharias, insensível à crítica. As ninharias eventualmente se combinaram em romances, resultando numa obra que dificilmente poderíamos considerar falha, ainda que tormentosa. Nessa busca diária por tudo que é rijo e sóbrio, inútil ou não, surgia um escritor. Depois de Machado de Assis, o maior que o Brasil já teve.
quarta-feira, 3 de maio de 2006
Um Prefácio a Ser Escrito
Folheando (mais uma) antologia de contos da Lygia Fagundes Telles, vou, naturalmente, direto ao prefácio. Ali ouvimos falar de como foi difícil reuni-los, de como o processo de seleção é árduo e penoso. Num repente o mais completo pavor inunda minh'alma: penso ter lido que os contos lhe são caros como filhos. Felizmente o presságio não se verifica.
Quem já tentou escrever o que quer que seja, mormente ficção, conhece bem a relação conflituosa entre autor e obra. Nunca se está satisfeito com o resultado etc. Todos sabemos disso. A necessidade de externar essa angústia em prefácios abstrusos e reticentes me parece uma excelente ilustração do contato entre modéstia e vaidade.
Telles é uma vítima conjuntural, talvez nem se dê conta disso. Não ocorre o mesmo com Clarice Lispector. Penso logo em suas entrevistas, em que gostava de imprimir longos e embaraçosos silêncios. Penso também que nunca se chegou a níveis comparáveis de pernosticismo. Há James Joyce, dirão. Mas James Joyce era de uma simplicidade desconcertante ao confessar-nos suas intenções: desejava ser analisado anos, gerações afora. Singelíssimo desejo, que pode ser negado com igual singeleza, assim como fez Carpeaux: "Não, senhor. Tenho mais que fazer."
Lispector, por outro lado, insiste num rococó psicológico destrambelhado; tenciona macular o mais inocente dos silêncios. Sou, como é sabido, um inconteste defensor do silêncio. Mas me refiro ao silêncio que se opõe à gritaria, não ao que lhe presta louvores mal disfarçados. Refiro-me ao silêncio que, talvez ingenuamente, procura ordenar e entender, não ao que se desdobra em convite à tergiversação gratuita.
Quem já tentou escrever o que quer que seja, mormente ficção, conhece bem a relação conflituosa entre autor e obra. Nunca se está satisfeito com o resultado etc. Todos sabemos disso. A necessidade de externar essa angústia em prefácios abstrusos e reticentes me parece uma excelente ilustração do contato entre modéstia e vaidade.
Telles é uma vítima conjuntural, talvez nem se dê conta disso. Não ocorre o mesmo com Clarice Lispector. Penso logo em suas entrevistas, em que gostava de imprimir longos e embaraçosos silêncios. Penso também que nunca se chegou a níveis comparáveis de pernosticismo. Há James Joyce, dirão. Mas James Joyce era de uma simplicidade desconcertante ao confessar-nos suas intenções: desejava ser analisado anos, gerações afora. Singelíssimo desejo, que pode ser negado com igual singeleza, assim como fez Carpeaux: "Não, senhor. Tenho mais que fazer."
Lispector, por outro lado, insiste num rococó psicológico destrambelhado; tenciona macular o mais inocente dos silêncios. Sou, como é sabido, um inconteste defensor do silêncio. Mas me refiro ao silêncio que se opõe à gritaria, não ao que lhe presta louvores mal disfarçados. Refiro-me ao silêncio que, talvez ingenuamente, procura ordenar e entender, não ao que se desdobra em convite à tergiversação gratuita.
terça-feira, 2 de maio de 2006
Dialética Erística

A edição brasileira (Topbooks) de Como Vencer um Debate sem Precisar Ter Razão, de Arthur Schopenhauer, é mais um livro do Olavo de Carvalho que do próprio Schopenhauer. Comentado à exaustão, tem-se a impressão de que, ao lê-lo, estamos a tentar resolver um problema com sua solução (ou pelo menos uma de suas soluções) já em mãos. Aos que já estão familiarizados com a idéia schopenhaueriana de dialética, a leitura desse volume é boa idéia. Os que preferirem algum tempo sozinhos com a obra antes de conhecer a opinião de outrem devem recorrer ou à edição espanhola (El Arte de Tener Razón, preparada por Dionísio Garzón), ou ao texto em inglês, The Art of Controversy, disponível aqui.
Os comentários do Olavo são bastante úteis quando procuram ilustrar, com exemplos atuais, os estratagemas descritos por Schopenhauer. Percebe-se com facilidade, mesmo quando não há exemplos, que muitos dos estratagemas ainda são largamente empregados, ainda que inconscientemente. Vale lembrar que apesar de a dialética ser, para o alemão, a lógica das aparências, isto é, a 'arte' de vencer um debate (não importanto, portanto, a legitimidade de nossos argumentos), muitos dos estrategemas podem ser usados, eventualmente, para defender idéias verdadeiras. De onde segue que é perigoso acusar alguém de empregar o artifício número tal de Schopenhauer, como se isso implicasse, de imediato, o charlatanismo do contendor. Muitas vezes, trata-se antes de debilidade lógica que de má intenção.
Nesse sentido a dialética (de Schopenhauer) se distancia bastante da sofística aristotélica, em que os argumentos a serem defendidos são necessariamente falsos. O tratado inteiro pretende ser uma 'continuação' de Aristóteles (Schopenhauer afirma que o Estagirita não definira dialética com suficiente rigor); para este último, porém, a dialética não fica restrita à discussão ou ao debate: ela seria, também, uma lógica investigativa, em que o intuito maior é chegar à verdade, e não fazer com que os outros acreditem nisso. É exatamente essa a questão que o Olavo aborda com mais frequência em seus comentários.
Cumpre entender, então, o porquê de Schopenhauer ter distorcido a acepção aristotélica de dialética (as consequências ulteriores dessa decisão na filosofia do alemão também são discutidas no comentário). Ora, como bom opositor de Hegel, resolveu atacá-lo também, e principalmente, pelo flanco dialético. A idéia de que a dialética necessariamente representa uma argumentação capciosa, em que a verdade aparece apenas circunstancialmente, parece advir da certeza de que a filosofia de Hegel não passava de um embuste:
Os comentários do Olavo são bastante úteis quando procuram ilustrar, com exemplos atuais, os estratagemas descritos por Schopenhauer. Percebe-se com facilidade, mesmo quando não há exemplos, que muitos dos estratagemas ainda são largamente empregados, ainda que inconscientemente. Vale lembrar que apesar de a dialética ser, para o alemão, a lógica das aparências, isto é, a 'arte' de vencer um debate (não importanto, portanto, a legitimidade de nossos argumentos), muitos dos estrategemas podem ser usados, eventualmente, para defender idéias verdadeiras. De onde segue que é perigoso acusar alguém de empregar o artifício número tal de Schopenhauer, como se isso implicasse, de imediato, o charlatanismo do contendor. Muitas vezes, trata-se antes de debilidade lógica que de má intenção.
Nesse sentido a dialética (de Schopenhauer) se distancia bastante da sofística aristotélica, em que os argumentos a serem defendidos são necessariamente falsos. O tratado inteiro pretende ser uma 'continuação' de Aristóteles (Schopenhauer afirma que o Estagirita não definira dialética com suficiente rigor); para este último, porém, a dialética não fica restrita à discussão ou ao debate: ela seria, também, uma lógica investigativa, em que o intuito maior é chegar à verdade, e não fazer com que os outros acreditem nisso. É exatamente essa a questão que o Olavo aborda com mais frequência em seus comentários.
Cumpre entender, então, o porquê de Schopenhauer ter distorcido a acepção aristotélica de dialética (as consequências ulteriores dessa decisão na filosofia do alemão também são discutidas no comentário). Ora, como bom opositor de Hegel, resolveu atacá-lo também, e principalmente, pelo flanco dialético. A idéia de que a dialética necessariamente representa uma argumentação capciosa, em que a verdade aparece apenas circunstancialmente, parece advir da certeza de que a filosofia de Hegel não passava de um embuste:
If I were to say that the so-called philosophy of this fellow Hegel is a colossal piece of mystification which will yet provide posterity with an inexhaustible theme for laughter at our times, that it is a pseudo-philosophy paralyzing all mental powers, stifling all real thinking, and, by the most outrageous misuse of language, putting in its place the hollowest, most senseless, thoughtless, and, as is confirmed by its success, most stupefying verbiage, I should be quite right.Seja como for, fica sua Dialética Erística, guia útil para os que queiram prevenir-se contra a desonestidade intelectual, tão comum nos dias que correm.
sexta-feira, 28 de abril de 2006
Felicidade

De mais um diálogo de Platão, dessa vez o Symposium (O Banquete):
Olavo de Carvalho subscreveria (ou subscreve) com entusiasmo o trecho citado: afirma com frequência que uma crise intelectual torna-se menos perceptível à medida que progride em seu tortuoso caminho. Realmente, difícil discordar. Se, supondo que não nos seja dada a oportunidade de conhecer a verdade absoluta, convém sermos capazes de ao menos formular opiniões tão corretas quanto possível. Que dizer, então, da seguinte definição de felicidade, dada por Fernando Pessoa e citada por Reinaldo Azevedo na edição de abril da Primeira Leitura?
Em primeiro lugar, há que diferenciar o individual do coletivo: quando Olavo de Carvalho fala em crise intelectual, evidentemente não se refere a indivíduos esparsos que se contentam e se refestelam em sua própria e confortável ignorância. Que se pode fazer quanto a isso? Quem nunca se sentiu tentado a fazer precisamente isso? Problema é quando todo um 'país', com toda a legitimidade real ou aparente que costumamos conferir a qualquer unanimidade, chega a um estado vergonhoso de falta de senso comum e, o que é pior (além de perigoso), esbraveja aos quatro ventos que está inalienavelmente certo. Além disso, reconheçamos o óbvio: há motivos para acreditar (não apenas por se tratar de poesia) que Pessoa não invejava mendigos, assim como para acreditar que talvez Voltaire não se dispusesse a morrer pela liberdade de expressão de cada um.
Se ele invejava ou não mendigos pouco importa: o que vale é a idéia expressa. E ainda assim se observa mais concordâcia que contraposição com o trecho de Platão. Sócrates (Platão) também sabe que não é nem pode querer ser nada, pelo menos nessa vida. Ele afirma que the unexamined life is not worth living ao mesmo tempo que admite que não é possível examiná-la até o fim. O desalento de que se queixa com tanta eloquência Álvaro de Campos não é menos intenso em Platão, com a diferença de que, para este último, não se trata de desalento, mas sim da condição primeira para uma existência verdadeiramente digna.
For here is the way it is: no one of the gods philosophizes and desires to become wise - for he is so - nor if there is anyone else who is wise, does he philosophize. Nor, in turn, do those who lack understanding philosophize and desire to become wise; for it is precisely this that makes the lack of understanding so difficult - that if a man is not beautiful and good, nor intelligent, he has the opinion that that is sufficient for him. Consequently, he who does not believe he is need does not desire that which he does not believe he needs.Se o homem sapiente não precisa da filosofia precisamente por já ser sapiente, e se o ignorante não a usa por achar que dela não precisa, quem, então, deverá lançar mão da filosofia? O homem que não é nem sapiente nem ignorante, claro está. A essa primeira gradação se associa uma segunda, que deriva da anterior e da qual Platão também fala: a existência da verdade absoluta, da opinião correta e da opinião incorreta. Não há dúvidas de que, em termos práticos, a opinião correta nos será tão útil quanto a verdade absoluta, mas o descompasso não deve deixar de existir: confundir os dois é um equívoco não de todo incomum nos cientistas mais audaciosos. O modelo (opinião) pode estar correto, mas ele não tem autoridade para explicar a origem mesma do fenômeno.
Olavo de Carvalho subscreveria (ou subscreve) com entusiasmo o trecho citado: afirma com frequência que uma crise intelectual torna-se menos perceptível à medida que progride em seu tortuoso caminho. Realmente, difícil discordar. Se, supondo que não nos seja dada a oportunidade de conhecer a verdade absoluta, convém sermos capazes de ao menos formular opiniões tão corretas quanto possível. Que dizer, então, da seguinte definição de felicidade, dada por Fernando Pessoa e citada por Reinaldo Azevedo na edição de abril da Primeira Leitura?
Tenho dó dos pobres. E também tenho dó dos ricos. Tenho mais dó dos ricos porque são mais infelizes. Quem é pobre pode julgar que, se deixasse de o ser, seria feliz. Quem é rico sabe que não há maneira de ser feliz. Quem é pobre tem uma só preocupação, ou uma só preocupação principal: a pobreza. Quem é rico, como, infelizmente, não tem essa, tem que ter todas as outras. Nunca vi homem rico mais feliz que um pobre; a não ser que por felicidade se entenda aquilo que se pode comprar no alfaiate e no ourives, e comer-se num restaurante (...). Os pobres são felizes: têm uma ilusão - crêem que o alfaiate, o ourives, o dono do restaurante caro são os dispensadores de felicidade. Crêem nisso. Os ricos são os ateus do alfaiate.Além de dizer que os pobres são mais felizes por terem uma opinião errada, Pessoa (Campos) é conhecido por nos assegurar que não é nada nem pode querer ser nada, apesar de ter em si todos os sonhos do mundo (versos citados mais pelo caráter aparentemente contraditório que por qualquer resquício de entendimento ou concordância honesta). Mais adiante, no mesmo poema, diz que Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Mais adiante ainda, completa: Vivi, estudei, amei, e até cri / E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. O fardo que advém do conhecimento ou da responsabilidade não é nenhuma novidade, além de se manifestar de várias maneiras: no entender de Kipling, temos o white men's burden; no entender de Campos, o thinking men's burden. Contrapõem-se, concluimos, à visão de Platão. Essa parece ser uma conclusão precipitada.
Em primeiro lugar, há que diferenciar o individual do coletivo: quando Olavo de Carvalho fala em crise intelectual, evidentemente não se refere a indivíduos esparsos que se contentam e se refestelam em sua própria e confortável ignorância. Que se pode fazer quanto a isso? Quem nunca se sentiu tentado a fazer precisamente isso? Problema é quando todo um 'país', com toda a legitimidade real ou aparente que costumamos conferir a qualquer unanimidade, chega a um estado vergonhoso de falta de senso comum e, o que é pior (além de perigoso), esbraveja aos quatro ventos que está inalienavelmente certo. Além disso, reconheçamos o óbvio: há motivos para acreditar (não apenas por se tratar de poesia) que Pessoa não invejava mendigos, assim como para acreditar que talvez Voltaire não se dispusesse a morrer pela liberdade de expressão de cada um.
Se ele invejava ou não mendigos pouco importa: o que vale é a idéia expressa. E ainda assim se observa mais concordâcia que contraposição com o trecho de Platão. Sócrates (Platão) também sabe que não é nem pode querer ser nada, pelo menos nessa vida. Ele afirma que the unexamined life is not worth living ao mesmo tempo que admite que não é possível examiná-la até o fim. O desalento de que se queixa com tanta eloquência Álvaro de Campos não é menos intenso em Platão, com a diferença de que, para este último, não se trata de desalento, mas sim da condição primeira para uma existência verdadeiramente digna.
sexta-feira, 7 de abril de 2006
O Gigante Chesterton

Já citei G. K. Chesterton aqui antes. Não é à toa: se há necessidade de sintetizar ou rematar uma idéia qualquer elegantemente, cita-se Chesterton. Um livro de Chesterton se assemelha a uma compilação de aforismos (não quaisquer aforismos), e não se trata de exagero.
Essa observação pode parecer hagiográfica por um lado e, por outro, redutora. Redutora porque hoje qualquer um escreve aforismos; juntam-se quatro ou cinco palavras de efeito e chegamos a um resultado supostamente genial. Uma coisa é certa: aforismos são válidos por serem pelo menos uma de duas coisas: intrinsecamente verdadeiros, isto é, traduzem a realidade da maneira mais abrangente possível; ou, se não são tão facilmente aplicáveis ao mundo palpável, são louváveis por economia: dizem o que normalmente se diz em várias linhas, sem perda de nuances. Se não soam universalmente procedentes, que sejam ao menos esteticamente estimulantes.
Chesterton une essas duas características, mas dá prioridade à primeira. A impressão que se tem (logo a primeira) é que há um compromisso inalienável e irrevogável para com a verdade. O compromisso seria pouco se não houvesse a perspicácia para percebê-la; Chesterton surpreende a verdade como Drummond pretendia surpreender a poesia: altiva, total, apenas esperando que alguém a venha resgatar. Chesterton resgata-a sempre e, o que é mais, ela comumente se opõe ao que consideramos mais trivial e axiomático.
É por isso que se diz que Chesterton escreve por paradoxos: vá lá, mas os paradoxos não são criados por ele. É alarmante o número de instâncias em que a verdade (ou pelo menos a verdade de Chesterton) é contradita serena e sistematicamente pelo consenso geral. Não há culpa em perceber isso; seria como culpar um astrônomo por ser excessivamente observador, ou um matemático por ser excessivamente rigoroso. Deturpações as mais grosseiras advêm, não raro, de um erro aparentemente inofensivo que, nada obstante, alastra seus pseudópodos ad infinitum até que nada sobre de aproveitável no raciocício original. Bom exemplo disso é a acepção que muitos consignam à entidade povo, da qual se fala como se fosse uma massa amorfa e indiferenciada, incapaz de qualquer decisão que corrobore a mais superficial das intuições. Se há restrições a fazer a essa percepção, que dizer de alguém que, logo após aceitá-la, usa-a como vias de legitimação da participação do mesmo povo no processo de tomada de decisões? Diz Chesterton:
It fills me with horrible amusement to observe the way in which the earnest Socialist industriously lays the foundation of all aristocracy, expatiating blandly upon the evident unfitness of the poor to rule. It is like listening to somebody at an evening party apologising for entering without evening dress, and explaining that he had recently been intoxicated, had a personal habit of taking off his clothes in the street, and had, moreover, only just changed from prison uniform.E por que não nos divertiremos, nós tambem, com essa constatação? Surge num repente a pergunta: Por que não pensei nisso antes?, ou, melhor ainda, Por que o mundo inteiro não pensou nisso antes? Não vão faltar ocasiões em que essa mesma pergunta poderia ser feita; a cada página Chesterton nos mostra o óbvio, e a cada página nós nos surpreendemos com ele. É como se a própria obviedade encerrasse toda a verdade dentro duma casca intransponível.
Dá-se prioridade à primeira característica (o compromisso com a verdade), mas a questão estética não é deixada de lado; em verdade, dada a assiduidade com que escrevia, mais justo seria dizer que se trata de um aspecto quase tão admirável quanto o primeiro: há em seus textos a característica daquilo que foi meditado à exaustão; nada falta, nada sobra. A qualidade de cada linha é incorruptível, algo raro até nos maiores escritores. Surge inclusive a dificuldade de escolher o que citar de seus escritos; conviria citar artigos inteiros. Conviria lê-lo sempre.
Cito, então, um trecho escolhido a esmo do Orthodoxy:
Thoroughly worldly people never understand even the world; they rely altogether on a few cynical maxims which are not true. Once I remember walking with a prosperous publisher, who made a remark which I had often heard before; it is, indeed, almost a motto of the modern world. Yet I had heard it once too often, and I saw suddenly that there was nothing in it. The publisher said of somebody, "That man will get on; he believes in himself." And I remember that as I lifted my head to listen, my eye caught an omnibus on which was written "Hanwell.*" I said to him, "Shall I tell you where the men are who believe most in themselves? For I can tell you. I know of men who believe in themselves more colossally than Napoleon or Caesar. I know where flames the fixed star of certainty and success. I can guide you to the thrones of the Super-men. The men who really believe in themselves are all in lunatic asylums." He said mildly that there were a good many men after all who believed in themselves and who were not in lunatic asylums. "Yes, there are," I retorted, "and you of all men ought to know them. That drunken poet from whom you would not take a dreary tragedy, he believed in himself. That elderly minister with an epic from whom you were hiding in a back room, he believed in himself. If you consulted your business experience instead of your ugly individualistic philosophy, you would know that believing in himself is one of the commonest signs of a rotter. Actors who can't act believe in themselves; and debtors who won't pay. It would be much truer to say that a man will certainly fail, because he believes in himself. Complete self-confidence is not merely a sin; complete self-confidence is a weakness. Believing utterly in one's self is a hysterical and superstitious belief like believing in Joanna Southcote: the man who has it has 'Hanwell' written on his face as plain as it is written on that omnibus."* Hospício, perto de Londres.
domingo, 2 de abril de 2006
O Livro e a Palavra
Italo Calvino, na conferência entitulada Exatidão, terceira das cinco que formam o volume Seis propostas para o próximo milênio (editado no Brasil pela Companhia das Letras), escreve:
É bem sabido que Sócrates não só não deixou nenhuma obra escrita como desprezava abertamente quem o fazia (lembremos que Tucídedes, seu contemporâneo, escreveu a História da Guerra do Peloponeso com o explícito intuito de legar algo de grande valia para a humanidade; uma possessão de todos os tempos). Que quer significar isso, além de uma demonstração de humildade? Que dizer, então, de Platão, discípulo seu, que decidiu ele próprio escrever, além de alçar seu mestre à posição de protagonista de boa parte de seus diálogos?
A verdade é que o mundo assim como o conhecemos perdeu o hábito de pensar. Não são só os preguiçosos ou os desinteressados; todos nós. Particularmente não conheço exceções. Percebe-se facilmente que o ato de pensar, que generalizo aqui para qualquer estado de análise ou contemplação, já se tornou um evento esporádico. Se fazemos uma pergunta de natureza não tão óbvia a quem quer que seja, recebemos um preciso pensar como resposta. Daí se infere facilmente que não é preciso pensar para responder a todas as outras. O pensador é necessariamente um excêntrico; põe-se a pensar por força de uma cadeia inusitada de eventos, algo que definitivamente não deveria acontecer todos os dias.
Para demonstração disso, basta ouvir uma conversa qualquer; não necessariamente a dos outros: as nossas servirão. Se nos alongamos por mais de 5 minutos num mesmo argumento, passamos a defendê-lo menos por vantagens inerentes a esse argumento que pela deselegância com que o nosso interlocutor se expressa. Depois de 5 minutos, já nem lembramos o que foi dito no início da conversa; precisamos recorrer, desesperadamente, à palavra escrita. E fazemos bem. Evitamos contradições as mais embaraçosas e, como lembra o Calvino, é-nos dada a oportunidade de emendar nossas frases tantas vezes quantas forem necessárias.
Se Sócrates quisesse testar ou examinar a solidez das minhas convicções através de um interrogatório, minha condição seria precisamente essa: mande as perguntas por e-mail.
A linguagem me parece sempre usada de modo aproximativo, casual, descuidado, e isso me causa intolerável repúdio. Que não vejam nessa reação minha um sinal de intolerância para com o próximo: sinto um repúdio ainda maior quando me ouço a mim mesmo. Por isso procuro falar o mínimo possível, e se prefiro escrever é que, escrevendo, posso emendar cada frase tantas vezes quanto ache necessário para chegar, não digo a me sentir satisfeito com minhas palavras, mas pelo menos a eliminar as razões de insatisfação de que me posso dar conta. A literatura - quero dizer, aquela que responde a essas exigências - é a Terra Prometida em que a linguagem se torna aquilo que na verdade deveria ser.Já Sócrates, na conclusão do Fedro, diálogo de Platão, afirma que Anyone who leaves behind him anything in writing and likewise anyone who takes it over from him supposing that such writing will provide something reliable and permanent would be a fool. Não deixa de ser curioso que o livro, ou o documento escrito, tenha sofrido uma inversão de papéis tão radical através dos tempos. Hoje, se queremos emprestar legitimidade real ou imaginária a seja o que for, vem-nos logo o impulso fazê-lo por escrito; temos a certeza de que o que foi escrito passa a ser imperecível.
É bem sabido que Sócrates não só não deixou nenhuma obra escrita como desprezava abertamente quem o fazia (lembremos que Tucídedes, seu contemporâneo, escreveu a História da Guerra do Peloponeso com o explícito intuito de legar algo de grande valia para a humanidade; uma possessão de todos os tempos). Que quer significar isso, além de uma demonstração de humildade? Que dizer, então, de Platão, discípulo seu, que decidiu ele próprio escrever, além de alçar seu mestre à posição de protagonista de boa parte de seus diálogos?
A verdade é que o mundo assim como o conhecemos perdeu o hábito de pensar. Não são só os preguiçosos ou os desinteressados; todos nós. Particularmente não conheço exceções. Percebe-se facilmente que o ato de pensar, que generalizo aqui para qualquer estado de análise ou contemplação, já se tornou um evento esporádico. Se fazemos uma pergunta de natureza não tão óbvia a quem quer que seja, recebemos um preciso pensar como resposta. Daí se infere facilmente que não é preciso pensar para responder a todas as outras. O pensador é necessariamente um excêntrico; põe-se a pensar por força de uma cadeia inusitada de eventos, algo que definitivamente não deveria acontecer todos os dias.
Para demonstração disso, basta ouvir uma conversa qualquer; não necessariamente a dos outros: as nossas servirão. Se nos alongamos por mais de 5 minutos num mesmo argumento, passamos a defendê-lo menos por vantagens inerentes a esse argumento que pela deselegância com que o nosso interlocutor se expressa. Depois de 5 minutos, já nem lembramos o que foi dito no início da conversa; precisamos recorrer, desesperadamente, à palavra escrita. E fazemos bem. Evitamos contradições as mais embaraçosas e, como lembra o Calvino, é-nos dada a oportunidade de emendar nossas frases tantas vezes quantas forem necessárias.
Se Sócrates quisesse testar ou examinar a solidez das minhas convicções através de um interrogatório, minha condição seria precisamente essa: mande as perguntas por e-mail.
Assinar:
Postagens (Atom)